Onde a tradução escolheu
παιδίον é a criança pequena. νήπιος é o que ainda não fala, o bebê, e por extensão o imaturo, aquele que precisa de leite e não de alimento sólido. As duas viram "criança" e "menino". Quando Paulo diz que falava como criança, é νήπιος, e a palavra já carrega a crítica. Neste livro: παιδίον 13× (a primeira em Lucas 1:59); νήπιος 1× (a primeira em Lucas 10:21).
Ἰερουσαλήμ é a forma hebraica do nome e não declina. Ἱεροσόλυμα é a forma grega e declina normalmente. Lucas e Paulo usam as duas, e há muito tempo se discute se a escolha tem peso, com a forma hebraica puxando para a cidade da promessa e a grega para a cidade do mapa. Nenhuma tradução em português mostra a diferença. Neste livro: Ἰερουσαλήμ 27× (a primeira em Lucas 2:25); Ἱεροσόλυμα 4× (a primeira em Lucas 2:22).
κύριος é o senhor no sentido amplo: dono, patrão, e é a palavra que a Septuaginta usou para o nome de Deus. δεσπότης é o dono de escravos, o senhor absoluto, e é dela que vem "déspota". As duas viram "Senhor". Quando Simeão diz "agora, Senhor, despedes o teu servo", a palavra é δεσπότης, e a força dela é outra. Neste livro: κύριος 102× (a primeira em Lucas 1:6); δεσπότης 1× (a primeira em Lucas 2:29).
λόγος é a palavra como conteúdo, discurso, razão de uma coisa. ῥῆμα é a palavra como dito, aquilo que foi pronunciado numa hora determinada. As duas viram "palavra" em português. Quando o texto fala da Palavra que era no princípio é λόγος; quando fala de uma palavra que saiu da boca, quase sempre é ῥῆμα. Neste livro: λόγος 33× (a primeira em Lucas 1:2); ῥῆμα 18× (a primeira em Lucas 1:37).
ἱερεύς é o sacerdote. ἀρχιερεύς é o sumo sacerdote, e no plural é a classe dos principais sacerdotes. Em português as duas se aproximam a ponto de a leitura rápida confundir, e nos Evangelhos quem age contra Jesus são quase sempre os ἀρχιερεῖς, não os ἱερεῖς. Neste livro: ἀρχιερεύς 15× (a primeira em Lucas 3:2); ἱερεύς 5× (a primeira em Lucas 1:5).
ἀφίημι é deixar ir, soltar, e é o verbo do perdão de dívidas e de pecados. χαρίζομαι é dar de graça, e é da mesma raiz de χάρις, graça: perdoar aqui é fazer um favor imerecido. As duas viram "perdoar". Uma solta o que prendia; a outra dá o que não era devido. Neste livro: ἀφίημι 31× (a primeira em Lucas 4:39); χαρίζομαι 3× (a primeira em Lucas 7:21).
Πέτρος é o nome próprio, e πέτρα é a rocha. O trocadilho de Mateus 16:18 depende disso: tu és Πέτρος, e sobre esta πέτρα edificarei. Em português "Pedro" e "pedra" ainda se parecem, mas λίθος, que é a pedra solta, a que se atira e com que se constrói, também vira "pedra", e aí a distinção some de vez. Neste livro: Πέτρος 19× (a primeira em Lucas 5:8); λίθος 14× (a primeira em Lucas 3:8); πέτρα 3× (a primeira em Lucas 6:48).
ἄνθρωπος é o ser humano, homem ou mulher. ἀνήρ é o homem em contraste com a mulher, e em muitos lugares significa marido. As duas viram "homem". Onde o texto fala do ser humano em geral e a tradução escreve "homem", quem lê hoje entende uma restrição que o grego não fez. Neste livro: ἄνθρωπος 95× (a primeira em Lucas 1:25); ἀνήρ 27× (a primeira em Lucas 1:27).
δύναμαι é conseguir, ter força para fazer. ἐξουσία é direito, autorização recebida de outro. ἰσχύω é força física, vigor. κράτος é domínio, poder exercido. Em português tudo vira "poder". Quando o texto diz que alguém recebeu poder, a pergunta é qual: se é ἐξουσία, foi dado por alguém; se é δύναμις, é capacidade. Neste livro: δύναμαι 26× (a primeira em Lucas 1:20); ἐξουσία 16× (a primeira em Lucas 4:6); ἰσχύω 8× (a primeira em Lucas 6:48); κράτος 1× (a primeira em Lucas 1:51).
ἐγείρω e ἀνίστημι são os dois verbos que o grego usa para ressuscitar, e a tradução traz ora um ora outro como "levantar" e ora como "ressuscitar". ἐγείρω é despertar, fazer levantar; ἀνίστημι é pôr de pé de novo. Quem lê em português vê "levantou-se" e "ressuscitou" como coisas diferentes, e no grego é o mesmo verbo. Neste livro: ἀνίστημι 27× (a primeira em Lucas 1:39); ἐγείρω 18× (a primeira em Lucas 1:69).
ἀγαπάω e φιλέω são os dois verbos gregos de amor, e a tradução escreve "amar" nos dois. φιλέω é o afeto que nasce do laço: da família, do amigo, do hóspede. ἀγαπάω era palavra mais pálida no grego comum e foi enchida de conteúdo novo pelos escritores do Novo Testamento. É a alternância que está por baixo do diálogo de João 21. Neste livro: ἀγαπάω 13× (a primeira em Lucas 6:27); φιλέω 2× (a primeira em Lucas 20:46).
κρίνω é julgar, separar, decidir. κρίσις é o ato de julgar, o processo. κρίμα é a sentença, o resultado do julgamento, e por isso muitas vezes é condenação. As três caem em "julgar" e "juízo". Onde o texto fala de juízo, saber se é o processo ou a sentença muda o que está sendo dito. Neste livro: κρίνω 6× (a primeira em Lucas 6:37); κρίσις 4× (a primeira em Lucas 10:14); κρίμα 3× (a primeira em Lucas 20:47).
νεκρός é o morto, a pessoa. θάνατος é a morte, aquilo que aconteceu com ela. Em português os dois caem no mesmo radical e ficam parecendo uma palavra só. Passar da morte para a vida (θάνατος) e ouvir a voz sendo um dos mortos (νεκρός) não são a mesma figura. Neste livro: νεκρός 14× (a primeira em Lucas 7:15); θάνατος 7× (a primeira em Lucas 1:79).
εὐαγγελίζω é anunciar a boa notícia. ἀπαγγέλλω é levar e contar o que se viu. καταγγέλλω é proclamar publicamente, com força de declaração. ἀναγγέλλω é relatar de volta, dar notícia. Os quatro viram "anunciar". Só o primeiro carrega a palavra evangelho dentro dele. Neste livro: ἀπαγγέλλω 11× (a primeira em Lucas 7:18); εὐαγγελίζω 10× (a primeira em Lucas 1:19).
γινώσκω é conhecer, ἐπιγινώσκω é conhecer plenamente, reconhecer. γνῶσις é conhecimento, ἐπίγνωσις é conhecimento pleno, e γνωρίζω é dar a conhecer. O prefixo ἐπι- não é enfeite: ele marca a diferença entre saber alguma coisa e conhecer até o fim. Em português as cinco viram conhecer e conhecimento, e o prefixo some. Neste livro: γινώσκω 28× (a primeira em Lucas 1:18); ἐπιγινώσκω 7× (a primeira em Lucas 1:4); γνῶσις 2× (a primeira em Lucas 1:77); γνωρίζω 1× (a primeira em Lucas 2:15).
ἀγαθός é bom no sentido moral, o que é bom em si. καλός é bom no sentido de belo, nobre, bem-feito, aquilo que se vê e se reconhece como bom. As duas viram "bom" e "boa". O bom pastor é καλός, o pastor exemplar; a boa obra que se faz costuma ser καλόν, a obra que os outros veem. Neste livro: ἀγαθός 16× (a primeira em Lucas 1:53); καλός 9× (a primeira em Lucas 3:9).
O português usa "mandar" para enviar alguém e para dar uma ordem, e o grego separa as duas coisas em várias palavras: ἀποστέλλω é enviar com missão; ἐντολή é o mandamento; ἐντέλλομαι é ordenar; παραγγέλλω é passar uma ordem adiante; κελεύω é a ordem de quem tem autoridade; ἐπιτάσσω é impor; διατάσσω é dispor; διαστέλλομαι é advertir com firmeza. Todas viram "mandou". Neste livro: ἀποστέλλω 25× (a primeira em Lucas 1:19); ἐντολή 4× (a primeira em Lucas 1:6); παραγγέλλω 4× (a primeira em Lucas 5:14); διατάσσω 4× (a primeira em Lucas 3:13); ἐπιτάσσω 4× (a primeira em Lucas 4:36); κελεύω 1× (a primeira em Lucas 18:40); ἐντέλλομαι 1× (a primeira em Lucas 4:10).
κόσμος é o mundo como ordem, o conjunto do que existe, e por extensão a humanidade em oposição a Deus. οἰκουμένη é a terra habitada, o mundo dos mapas, e no primeiro século queria dizer o império. As duas viram "mundo". Quando o decreto de César alcança todo o mundo, é οἰκουμένη, o mundo administrado por Roma. Neste livro: κόσμος 3× (a primeira em Lucas 9:25); οἰκουμένη 3× (a primeira em Lucas 2:1).
οἰκία é a casa, o prédio onde se mora. οἶκος é a casa no sentido de lar e de família, a gente que vive nela, e é a palavra usada para a casa de Israel e para a casa de Deus. A tradução escreve "casa" nas duas. Quando o texto diz que alguém creu com toda a sua casa, a palavra é οἶκος: são as pessoas, não as paredes. Neste livro: οἶκος 33× (a primeira em Lucas 1:23); οἰκία 24× (a primeira em Lucas 4:38).
ζωή é a vida como princípio, o fato de viver, e é a palavra da vida eterna. ψυχή é a vida de alguém, a que se pode perder, dar ou salvar, e é a mesma palavra que em outros lugares vira "alma". Quando a tradução escreve "vida" nos dois, o leitor não tem como saber que num lugar está lendo alma e no outro não. Neste livro: ψυχή 14× (a primeira em Lucas 1:46); ζωή 5× (a primeira em Lucas 10:25).
δοῦλος é o escravo, propriedade de alguém. διακονέω é servir à mesa, atender, e é a raiz de "diácono". δουλεύω é ser escravo de. παῖς é o menino ou o servo jovem. λατρεύω é o serviço prestado a Deus, o culto. σύνδουλος é o companheiro de escravidão. Todas caem em "servo" e "servir", e a distância entre escravo e garçom desaparece. Neste livro: δοῦλος 26× (a primeira em Lucas 2:29); παῖς 9× (a primeira em Lucas 1:54); διακονέω 8× (a primeira em Lucas 4:39); δουλεύω 3× (a primeira em Lucas 15:29); λατρεύω 3× (a primeira em Lucas 1:74).
οἶδα é saber, ter a informação. γινώσκω é chegar a conhecer, e guarda a ideia de um conhecimento que se adquire e que envolve relação. O português passa dos dois para "saber" e "conhecer" sem regra fixa, e a diferença some. Onde o texto diz que alguém conheceu, vale olhar qual dos dois está embaixo: um é dado, o outro é encontro. Neste livro: γινώσκω 28× (a primeira em Lucas 1:18); οἶδα 22× (a primeira em Lucas 2:49).
ἱερόν é o conjunto do templo, todo o recinto com os pátios. ναός é o santuário, a casa propriamente dita, onde só o sacerdote entrava. As duas viram "templo". Jesus ensinando no templo está no ἱερόν; o véu que se rasgou é do ναός. Onde o texto diz que somos templo do Espírito, a palavra é ναός. Neste livro: ἱερός 8× (a primeira em Lucas 19:47); ναός 4× (a primeira em Lucas 1:9).
καιρός é o momento oportuno, a hora certa de uma coisa. χρόνος é a duração, o tempo que passa e se mede. As duas viram "tempo". Quando o texto diz que o tempo está cumprido, é καιρός, o momento chegou; quando fala de muito tempo depois, é χρόνος. Neste livro: καιρός 13× (a primeira em Lucas 1:20); χρόνος 7× (a primeira em Lucas 1:57).
ἀποστέλλω é enviar com missão e com autoridade, e é dela que vem "apóstolo". πέμπω é simplesmente mandar alguém ir. ἐξαποστέλλω é despachar para fora. As três viram "enviar" e "mandar". Onde o texto diz que o Pai enviou o Filho, saber qual verbo está ali muda o peso da frase. Neste livro: ἀποστέλλω 25× (a primeira em Lucas 1:19); πέμπω 10× (a primeira em Lucas 4:26); ἐξαποστέλλω 4× (a primeira em Lucas 1:53).
ἐρωτάω é perguntar, e também pedir de igual para igual, o que explica por que às vezes aparece como "rogar". ἐπερωτάω é interrogar, perguntar com insistência, e é o verbo do interrogatório. πυνθάνομαι é indagar, procurar saber. Os três viram "perguntar", e a diferença entre pedir, interrogar e indagar se perde. Neste livro: ἐπερωτάω 17× (a primeira em Lucas 2:46); ἐρωτάω 15× (a primeira em Lucas 4:38); πυνθάνομαι 2× (a primeira em Lucas 15:26).
φόβος é medo. A tradução escreve "temor" quando o objeto é Deus e "medo" quando é qualquer outra coisa, e assim cria em português uma distinção que o grego não faz. Quem lê "o temor do Senhor" e "não tenhais medo" não percebe que é a mesma palavra, e a tensão entre as duas frases, que existe no texto, desaparece. Neste livro: "temor" em 5 versículos (o primeiro em Lucas 1:65); "medo" em 2 versículos (o primeiro em Lucas 1:12). Nos dois casos a palavra grega é φόβος.
γινώσκω aparece ora como "conhecer", ora como "saber". O verbo é um só, e guarda a ideia de um conhecimento que se adquire e que envolve relação, diferente de οἶδα, que é simplesmente ter a informação. Quando a tradução escolhe "saber" para γινώσκω, ela apaga essa diferença e o texto fica parecendo dois verbos onde há um. Neste livro: "sabe" em 9 versículos (o primeiro em Lucas 10:22); "conhece" em 5 versículos (o primeiro em Lucas 1:34). Nos dois casos a palavra grega é γινώσκω.
ἀνήρ é o homem em contraste com a mulher, e por isso é também "marido". A tradução alterna entre os dois conforme o contexto, e faz bem. O que se perde é a ligação: nas passagens sobre casamento, "homem" e "marido" são a MESMA palavra no grego, e o argumento do autor muitas vezes depende disso. Note que ἄνθρωπος, que é o ser humano em geral, é outra palavra. Neste livro: "homem" em 23 versículos (o primeiro em Lucas 1:27); "marido" em 2 versículos (o primeiro em Lucas 2:36). Nos dois casos a palavra grega é ἀνήρ.
ἐξουσία é o direito de fazer, a autorização recebida de alguém. A tradução escreve ora "autoridade", ora "poder". Quando vira "poder", ela encosta em δύναμις, que é outra palavra e quer dizer capacidade, força para fazer. Ter ἐξουσία é estar autorizado; ter δύναμις é conseguir. Onde o texto diz que alguém recebeu poder, vale olhar qual dos dois está embaixo. Neste livro: "autoridade" em 10 versículos (o primeiro em Lucas 4:32); "poder" em 7 versículos (o primeiro em Lucas 4:6). Nos dois casos a palavra grega é ἐξουσία.
ζητέω é buscar, procurar, ir atrás. A tradução usa as duas palavras portuguesas quase ao acaso. Quando o texto diz "buscai primeiro o reino" e, noutro lugar, que estavam "procurando" Jesus para matá-lo, é o mesmo verbo, e o contraste entre as duas buscas é coisa que o autor construiu. Neste livro: "busca" em 9 versículos (o primeiro em Lucas 11:10); "procuravam" em 8 versículos (o primeiro em Lucas 5:18). Nos dois casos a palavra grega é ζητέω.
ἀφίημι é deixar ir, soltar, largar. É o verbo de largar as redes e seguir Jesus, e é o mesmo verbo de perdoar pecados e dívidas. Perdoar, em grego, é literalmente soltar o que estava preso. A tradução separa em "deixar" e "perdoar", e a imagem que ligava as duas coisas some. Neste livro: "deixa" em 12 versículos (o primeiro em Lucas 4:39); "perdoa" em 12 versículos (o primeiro em Lucas 5:20). Nos dois casos a palavra grega é ἀφίημι.
μακάριος é o feliz, aquele a quem a vida correu bem, e é a palavra que abre cada linha do sermão do monte. A tradução alterna com "bendito", que é outra ideia: bendito é quem recebeu bênção de alguém. μακάριος não fala de quem abençoou, fala do estado de quem está assim. Quando as duas se misturam, a fala perde o corte. Neste livro: "bem-aventurado" em 8 versículos (o primeiro em Lucas 10:23); "benditos" em 4 versículos (o primeiro em Lucas 6:20). Nos dois casos a palavra grega é μακάριος.
αἴρω é levantar e levar consigo. Daí sai "tomar" a cruz e o leito, e "tirar" o pecado do mundo. É o mesmo gesto: erguer e levar embora. Quem lê em português vê dois verbos diferentes onde o grego usou um, e a ligação entre tirar o pecado e tomar a cruz desaparece. Neste livro: "toma" em 6 versículos (o primeiro em Lucas 5:24); "tirado" em 4 versículos (o primeiro em Lucas 6:29). Nos dois casos a palavra grega é αἴρω.
λαμβάνω cobre receber o que é dado e tomar o que se pega. A tradução escolhe um ou outro conforme a cena. A diferença importa em passagens sobre graça: receber é passivo, tomar é ativo, e o grego usa a mesma palavra nos dois, deixando a questão em aberto onde o português já resolveu. Neste livro: "tomou" em 12 versículos (o primeiro em Lucas 6:4); "receber" em 3 versículos (o primeiro em Lucas 6:34). Nos dois casos a palavra grega é λαμβάνω.
πέτρα é a rocha, a pedra grande e firme, diferente de λίθος, que é a pedra solta. A tradução escreve ora "rocha", ora "pedra", e a segunda escolha faz πέτρα encostar em λίθος, que é outra palavra. A casa construída sobre a rocha e a πέτρα de Mateus 16 são a mesma palavra; a pedra que os construtores rejeitaram é λίθος. Neste livro: "pedra" em 2 versículos (o primeiro em Lucas 8:6); "rocha" uma vez, em Lucas 6:48. Nos dois casos a palavra grega é πέτρα.
καθαρίζω é tornar limpo. A tradução escreve "limpar" quando é lepra ou louça e "purificar" quando é ritual ou coração. O grego não separa: é a mesma limpeza. Quando Jesus declara puros todos os alimentos e quando toca o leproso, o verbo é um só, e a ligação entre as duas cenas é proposital. Neste livro: "limpo" em 5 versículos (o primeiro em Lucas 4:27); "purificados" uma vez, em Lucas 7:22. Nos dois casos a palavra grega é καθαρίζω.
ἐγείρω é despertar, fazer levantar. A tradução escreve "levantou-se" quando alguém se põe de pé e "ressuscitou" quando é o Senhor, mas o verbo grego é o mesmo. Para quem escreveu, ressurreição era literalmente um levantar-se, e a palavra do milagre é a mesma do gesto de todo dia. Em português isso vira duas coisas diferentes. Neste livro: "levanta" em 11 versículos (o primeiro em Lucas 1:69); "ressuscitam" em 6 versículos (o primeiro em Lucas 7:22). Nos dois casos a palavra grega é ἐγείρω.
ἀνίστημι é pôr de pé de novo, e sofre exatamente o que ἐγείρω sofre: sai como "levantou" num lugar e "ressuscitou" noutro. Os dois verbos gregos servem para as duas coisas, e a tradução reparte cada um deles em dois. Resultado: quatro palavras em português onde o grego tem duas. Neste livro: "levantou" em 19 versículos (o primeiro em Lucas 1:39); "ressuscite" em 6 versículos (o primeiro em Lucas 9:8). Nos dois casos a palavra grega é ἀνίστημι.
οὐδείς é a negação total: nenhum, nem um. Vira "ninguém" quando fala de gente e "nada" quando fala de coisa, o que em português é obrigatório. O que se perde é a repetição: quando o grego martela a mesma palavra num parágrafo, o português alterna e o efeito de insistência some. Neste livro: "ninguém" em 13 versículos (o primeiro em Lucas 1:61); "nada" em 10 versículos (o primeiro em Lucas 5:5). Nos dois casos a palavra grega é οὐδείς.
ἀποστέλλω é enviar com missão e com autoridade, e é dela que vem a palavra apóstolo. A tradução escreve ora "enviou", ora "mandou". "Mandar" em português é ambíguo: serve para despachar alguém e para dar ordem. Quando ἀποστέλλω vira "mandou", a ideia de missão enfraquece e vira recado. Neste livro: "enviou" em 11 versículos (o primeiro em Lucas 1:19); "mandou" em 9 versículos (o primeiro em Lucas 9:52). Nos dois casos a palavra grega é ἀποστέλλω.
ψυχή é uma palavra só, e a tradução escreve ora "alma", ora "vida". Não é erro: o grego usa ψυχή para a vida que se pode perder, dar ou salvar, e o português não tem uma palavra que sirva nos dois casos. Mas o preço é alto. Quem lê "quem quiser salvar a sua vida" e, dois versículos depois, "de que aproveita ganhar o mundo e perder a sua alma", não tem como saber que ali está a mesma palavra, repetida de propósito. Neste livro: "alma" em 6 versículos (o primeiro em Lucas 1:46); "vida" em 5 versículos (o primeiro em Lucas 9:24). Nos dois casos a palavra grega é ψυχή.
ἔθνος quer dizer povo, nação. No plural, na boca de um judeu, passou a significar os outros povos, os que não são Israel, e é daí que vem "gentios". A tradução escreve ora uma coisa ora outra. Em "fazei discípulos de todas as nações", a palavra é a mesma que em outros lugares vira "gentios": o alcance da ordem é justamente esse. Neste livro: "gentios" em 5 versículos (o primeiro em Lucas 2:32); "nações" em 3 versículos (o primeiro em Lucas 21:24). Nos dois casos a palavra grega é ἔθνος.
διαθήκη é ao mesmo tempo o pacto entre duas partes e o testamento que alguém deixa ao morrer. Em Hebreus o autor joga com os dois sentidos de propósito: um testamento só vale depois da morte de quem o fez, e é esse o argumento. A tradução tem de escolher um dos dois a cada versículo, e o trocadilho, que é o coração da passagem, se perde. É desta palavra que vêm os nomes Antigo e Novo Testamento. Neste livro: "pacto" uma vez, em Lucas 1:72; "testamento" uma vez, em Lucas 22:20. Nos dois casos a palavra grega é διαθήκη.
Nada disto é calculado enquanto você lê. Foi apurado uma vez e conferido. Um alerta falso destrói a confiança na ferramenta inteira, então o critério foi: na dúvida, descarta.
A comparação é com a Bíblia Livre. Em outra tradução as escolhas são outras.
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